domingo, 29 de novembro de 2009

Mais um conto parte 4


Minha estréia aqui nesse espaço demorou mas chegou. Sou obrigado a admitir que prefiro a madrugada para postar. Eis minha única afinidade com zumbis. Dormindo cedo e jogando Dragon Age não estava dando.
O conto a seguir faz parte do cenário de Lobisomem O Apocalípse. Mais uma daquelas aventuras que não saem do papel. Por isso não dei um título decente. Para quem se interessar, as três primeiras partes do conto estão no meu antigo blog em:

Mais um conto
Mais um conto parte 2
Mais um conto parte 3

Sem mais floreios, com vocês:

Mais um conto parte 4


Se a morte era um apagar de luzes, Faye estava se acostumando com isso. Fechou os olhos imaginando o palco do pub onde tocava com o irmão. Um momento dourado. Antes de tocar ele inspirava lentamente o ar com seus olhos cegos fechados. Nunca tivera coragem de perguntar. Nesse momento seus olhos iam de um canto ao outro por debaixo das pálbebras. O que ele via? Um bom momento do passado? As surras no orfanato? Paisagens do outro lado do vidro do ônibus quem sabe. A única pessoa em quem confiava estava morta agora. No escuro as lágrimas rolavam pelo seu rosto em brasa. Faye estendeu as mãos à frente imitando o irmão. As teclas do piano recebiam dedos ágeis produzindo o dedilhar da música Street Spirit do Radiohead. Cantou a música naquela altura que só a própria pessoa consegue ouvir. Era sua despedida. Prometeu que voltaria um dia para visitar o irmão. Tinha certeza de que Bundy cuidaria da sepultura do irmão.

Releu o conteúdo do envelope enquanto assuava o nariz vermelho. Seus olhos se detiveram mais uma vez no conteúdo. Quem era AWS? E o pior, porque estavam sendo caçados? Aquele envelope era a prova cabal de que não estava segura ali. A tirar pelo jeito como o enfermeiro queria tirar o corpo fora: “Aqui está. Mandaram lhe entregar isso. Você nunca me viu na vida ok? Até mais!”. Essa história já estava errada demais. Antes tivesse morrido junto ao irmão. Seu jeito pragmático pela primeira vez confluía com jeito paizão de Bundy, que fatalmente lhe diria que o irmão quereria que sobrevivesse. Sentiu um fio de ódio percorrer-lhe o corpo como um laser escaneando alguma coisa. Precisava sair dali.

O corredor da ala de internação estava vazio. Duas lâmpadas fluorescentes piscavam intermitentemente. Em outros tempos seria mamão com açúcar se esgueirar e dar no pé dali. Encostou-se próxima à pilastra encolhendo-se contra a lixeira, os olhos fixos no balcão da enfermaria. Os curativos estavam úmidos de sangue, os ferimentos ardendo em demasia. A pressão caiu e ela achou que fosse desmaiar. Então tiros ressoaram altos em algum lugar próximo ao hospital. Faye não precisou esperar mais que dois minutos. As luzes em alguns quartos acenderam-se solicitando a presença dos enfermeiros. A enfermeira que estava no balcão praguejou quando não encontrou seu colega do turno da madrugada ali presente. Ele era mestre em escapar. Mas hoje a casa ia cair. Se aquela barulhada fosse mesmo tiroteio, em breve a emergência mandaria mais uns baleados para o setor. Ingênuo é quem pensa que a meninada acende bombinha de madrugada. A escapada do amigo ia render muita dor de cabeça.

Faye aproximou-se do balcão e sem hesitar apoderou-se de um jaleco branco, uma bolsa e um providencial par de chinelos confortáveis. Prendeu ao avesso o crachá no jaleco. Enquanto descia as escadas, tateava freneticamente o conteúdo da bolsa. Achou o celular. Um BlackBerry 9700, que tinha mais tecla do que tudo. Retirou a bateria, e levou a orelha. Ao passar pela segurança, fingiu discutir com alguém, sorriu e jogou-lhes metade de um pacote de Halls. Mal deu alguns passos do lado de fora do hospital, reconheceu a BMW preta com os assassinos do seu irmão, estacionando do outro lado da rua. Não conseguiria chegar ao ponto de táxi apenas alguns metros à frente sem cruzar com eles. Arriscou a sorte. Sentou-se na bancada próxima ao jardim de entrada do hospital e sorriu com o rosto enfiado dentro da bolsa ao se comparar com o Papa Léguas. Fingia procurar algo. Os assassinos traziam o enfermeiro consigo. O coitado estava tão assustado que mal deu conta de sua presença. Quando o trio passou pela segurança, ela retirou o rosto da bolsa e com a claridade da rua conseguiu enxergar uma chave de carro. O alarme de um Siena prateado apitou duas vezes. Girou a chave. Meio tanque. Serviria.

AWS teve a sorte de não ver o chão se aproximando. Tanto esforço pra nada. Momentos antes tinha dado aquele salto que faria até o Neo do Matrix sentir inveja e, no entanto, agora ia se esborrachar com aquele saco de pulgas no meio do escuro. A cena foi tão rápida que seu cérebro ainda não tinha processado o acontecimento extraordinário: Caolho era um lobisomem. O baque produzido pela queda era semelhante a uma batida na traseira de um carro quando se está de cinto. Depois sentiu apenas o chacoalhar do seu corpo no gancho formado pelo braço daquele monstro que o segurava. Esforçou-se para ficar acordado, mas infelizmente perdera muito sangue. “Puta que pariu! Vou morrer! Que merda!” – pensou antes do fim. Caolho sorriu do filhote. Se tinha forças para gritar certamente iria viver. Contudo ele precisava ser rápido para alcançar o Caern antes do garoto esvair-se numa poça de sangue. Hospital nem pensar. Seus ouvidos captaram os sons de pneu se aproximando no asfalto molhado. Torceu para que não fosse um táxi. Quatro anos antes o ancião havia proibido qualquer um de aterrorizar com os pobres dos taxistas. Eles são uma ótima fonte de informações. O carro parou no semáforo a frente. Mesmo a mais desesperada das prostitutas sabia que naquele horário não dava cliente. O resto eram alguns mendigos. Caolho desfez a transformação lentamente antes de sair do beco. Ainda tinha o porte assustador de um homem incrivelmente alto e forte. Faria parecer um assalto. Quando os faróis do veículo se aproximaram próximo ao semáforo na esquina, o Siena diminuiu a velocidade. Não que pretendesse parar. Ninguém era burro o bastante para ficar parado ali. Entretanto, um caminhão do lixo passou vagarosamente com os lixeiros recolhendo os sacos plásticos das lixeiras. Faye socou o volante frustrada. Olhou pelo retrovisor um homem que parecia carregar um colega bêbado pelos braços. Os segundos passavam vagarosamente. O caminhão mal se moveu. Resolveu que não esperaria abrir o sinal para sair dali. Olhou mais uma vez no retrovisor. O homem desaparecera. Virou-se em tempo de ouvir os estardalhaço do vidro do passageiro se espatifando. Caolho entrou no veículo sem muita conversa:

— Sem choro minha filha! Dá uma ré que eu esqueci um pacote ali atrás.

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