Em algum ponto do passado quando Topper tinha apenas 11 anos, ele jurou vingar sua mãe. Na época, após da morte do pai, sua mãe tivera problemas com as drogas e o desemprego. Foi quando conheceu o padrasto de Topper que os tratou muito bem nos primeiros meses. Parecia um recomeço promissor, cheio de expectativas que foram murchando até tornarem-se nas bebedeiras e na violência doméstica. Uma novela que se repetia em muitos lares. Dois anos se passaram. Topper tornou-se um verdadeiro cão de briga. Batia por prazer. Sentia-se atado por não conseguir mudar sua realidade e passou a descontar em seus desafetos na escola e nas ruas. A oportunidade de virar a mesa veio certa noite. Sua mãe receberia alta da clínica de reabilitação e deveria chegar às 21 horas. Tempo suficiente para o padrasto molesta-lo como vinha fazendo alguns meses. Nesse dia, Topper amassava uma massa de pão que aprendera com Wendy, sua primeira namorada. A massa estava dura sobre o mármore da pia, o que demandava um tremendo esforço para amassá-la e comprimi-la novamente. Cessou a cantoria quando sentiu a presença do padrasto atrás de si. Estava nu. “Vou comer você e a sua mãe” – dizia próximo ao seu pescoço. Topper continuou socando a massa de pão, orando em silêncio. Nenhuma resposta. Sentiu as mãos do padrasto aproximando-se da sua cintura. Poderia suportar. Só mais uma vez. Sua mãe viria. A vida mudaria. Foi quando o telefone tocou até cair na secretária eletrônica enquanto o padrasto se esfregava e gemia em cima do garoto: “Aqui é da Clínica de Reabilitação Alvorecer. Estou ligando para dar uma pesarosa notícia. A paciente Liza teve uma recaída e precisará ficar mais algum tempo conosco. Por favor entrem em contato.”.
Topper sorriu amargurado. Sua cota de choro já tinha se esgotado há muito. Olhou para a massa de pão enquanto suportava os fios da barba áspera em sua pele. Um vento gélido soprou pela janela da cozinha. A chuva deu uma trégua revelando a lua cheia. Topper virou-se apertando a massa nas mãos. O padrasto sentiu-se incomodado com o sorriso do garoto que o encarava. Deu-lhe um tapa com as costas das mãos. Aquilo sim o excitava. Topper voltou o rosto para encará-lo. Era assim que deveria ser. A fúria dosada com parcimônia. Era a voz que zombava de sua fraqueza. Ele reconhecia isso agora enquanto encarava seu algoz pela segunda vez. Percebia maravilhado a diferença. Antes simplesmente explodia em uma nuvem de violência com gente mais fraca que ele. Agora podia sentir algo bem mais profundo que a raiva. Raiva dá e passa. Aquilo era uma espécie de fúria destrutiva. Um poder enorme. Algo para mudar tudo. Para sempre. Um segundo tapa veio, no que foi interrompido pelo garoto que segurava firme o antebraço e parte da massa. Sentindo a resistência do garoto, o padrasto acertou-lhe um soco em cheio no rosto. Para sua surpresa o garoto não soltara seu outro braço. Ao contrário, apertava-o ainda mais. Ele cuspiu sangue e continuou sorrindo. Sentia a transformação. Horrorizado o padrasto tentava desvencilhar-se da aberração que se formava a sua frente. Garras e presas deformavam o moleque. Fez força, tentou alcançar uma faca, sem sucesso. Aquele monstro ia foder com ele. Maldita hora em que fora molestar o capeta. As roupas do garoto rasgaram-se, dando lugar a uma profusão de pêlos. “Eita porra! Deus do céu, isso é um lobisomem!”. A criatura rugiu balançando a bocarra cheia de sangue próximo ao pedófilo. Em seguida estourou o antebraço dele como quem estoura uma bexiga. Ele gritou desesperado com o que sobrara do seu braço. Na vã tentativa de se afastar da criatura, escorregou na própria mão já caída junto à poça de sangue. A criatura ardia em fúria. O frenesi ia tomando conta do corpo do garoto. Era uma sensação de loucura muito forte. Mas não. Topper recusava-se a deixá-la comandar. Precisa vê-lo sofrer. Sangrar até a morte. O desgraçado arrastava-se desesperado pelo chão. Agarrando-se inutilmente a um fio invisível de esperança. Então o lobisomem arremessou a massa na cara do pedófilo. Saltou sobre ele e esmurrou a massa, seu crânio e miolos até encontrar o fundo do chão da cozinha.
Natasha foi arrancada do solo e voou contra uma pilha de entulho. Um emaranhado de móveis velhos, garrafas, vasos de planta e caixas de papelão. Kael pareceu satisfeito com o chute em sua ex-parceira. Estava mesmo querendo acertar velhos assuntos. Mesmo com o impacto, Natasha não largou a pistola. Estava toda torta. Susteve a respiração. Conhecia o estilo sujo de briga dele. Não obstante ele era uma fonte inesgotável de surpresas. Percebeu que não era tão esperta quanto demonstrava. O ex-parceiro realmente jogava com o destino. Se quaisquer daqueles três tiros que ela disparou contra o filhote não tivessem sido absorvidos pelo tal de Caolho, o garoto morreria e com ele aquela profecia dos infernos que se espalhava entre os videntes de todas as tribos. Kael apostou e ganhou. Enquanto Natasha apertava o gatilho sem dó, Kael optou por transformar-se na meia forma, conhecida entre os garous por glabro. A grosso modo, era como ver um halterofilista com muitos pêlos. Ele aproximou-se. Estava determinado a não deixa-la se transformar. Já vira seu frenesi uma vez. Era o suficiente para querer estar a quilômetros dali.
Os tiros disparados por Natasha foram vistos por uma coruja que sobrevoava os arredores e eram muito parecidos com agulhas perfurando um boneco vodu. Kael julgou que ela hesitaria em acertá-lo na cabeça. Agüentaria dois, no máximo três tiros. Mais do que isso seria pedir para visitar, em caráter permanente, as gavetas do necrotério. O punho de Kael fechou-se no pescoço Natasha. Desesperada, percebeu que o jogo ia muito além da demonstração de poderes. Ele estava em seu território e não teria dificuldades em justificar o assassinato aos anciões. Maldita hora em que Topper chegara atirando. Com sorte o filhote morreria. Contudo, precisava estar viva para confirmar o serviço. “Sinto muito meu amor” – despediu-se mentalmente antes de atirar na cabeça do ex-parceiro. Puxou o gatilho. A arma emperrou. Puxou novamente. Nada. Uma vez mais. Apenas o estalo da arma mascando inutilmente. Tarde demais para lutar contra o sufocamento. Sabia técnicas de Krav Maga que pudessem libertá-la. Sabia igualmente que era tarde demais. Kael vencera. Tudo ao seu redor escureceu e ela desmaiou.
Enquanto isso Topper se virava enquanto podia. Logo após o disparo no filhote, um taco de beisebol quebrou-se em suas costas. Sua arma voou para o monte de entulho. Foi ao chão e, ainda zonzo, recebeu toda sorte de pancadas. Tudo estaria resolvido. Topper apanharia até desmaiar. Um a zero para o time da casa. Todavia um dos capangas não mediu palavreados ao distribuir os pontapés: “Toma isso seu filho da puta!”; “Ta gostando? ; “Quando a gente terminar com você a gente começa com a sua mãe”.Estopim. Um dos capangas percebeu o estranho combustível para a transformação que ocorria com Topper. Já ouvira falar de uma merda assim antes, por isso tratou de se transformar também. Já o outro não teve a mesma sorte. Estava entretido demais distribuindo seus golpes. Topper transformou-se enquanto apanhava. Pôs-se de pé com muito custo, e rasgou a jugular do meliante. Quanto ao lobisomem ao lado, a luta fora bem mais acirrada. Um pouco mais demorada é verdade, mas igualmente sangrenta. Seu adversário empunhava uma adaga de prata, abrindo talhos no corpo de Topper do tamanho do buraco de um rato. Finalmente Topper conseguiu segurar o braço com o qual o adversário investia com golpes poderosos. Prendeu-o junto ao lado direito do seu corpo e em seguida desferiu um golpe violento contra o peito do inimigo. A caixa torácica partiu-se perfurando os pulmões da criatura que cuspiu imediatamente o sangue espesso e enegrecido. Topper ainda esmagou-lhe o coração só para ter certeza.
Kael tomava fôlego enquanto tateava os buracos dos tiros. Topper sentia os sangue afluir em abundância pelo chão. Tossiu. Os olhares de Kael e Topper se cruzaram.
Restaria apenas um.







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