quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Da Série: “Odin temos mais um para o jantar” (parte 3)


  Ser um fazendeiro ou é um prelúdio, ou é um epílogo na vida de alguns homens marcados com o cruel destino de sangue. William Wallace (Coração Valente), Maximus (Gladiador), Benjamin Martin (O Patriota) são apenas alguns exemplos retratados nos cinemas. A paz é sem dúvida benefício do campo, mas não esqueçamos que lá também é o local de árduo trabalho.Posta essa pequena coincidência, vamos a nossa pequena história de hoje.

“1 – Lute fanaticamente;
2 – Atire com calma. Tiros rápidos não levam a nada, concentre-se no tiro;
3 – Seu maior adversário é o francoatirador inimigo. Faça-o cair em sua armadilha;
4 – Dispare sempre um só tiro de cada posição. Do contrário, descobrirão sua posição;
5 – A trincheira prolonga sua vida;
6 – Pratique a avaliação de distâncias;
7 – Torne-se um mestre da camuflagem e do uso do terreno;
8 – Pratique suas habilidades constantemente, na retaguarda e em sua pátria;
9 – Nunca se afaste do seu rifle ou o empreste;
10 – A sobrevivência é dez vezes a camuflagem e uma vez o tiro. “
(Decálogo dos francoatiradores alemães)


Simo Häyhä

  Era uma vez um fazendeiro. Ele nasceu em 1905 no município de Rautjärvi, na fronteira da Finlândia com a Russia. Portanto um finlandês no fim do mundo. Gostava de criar cães de caça e adorava abater alces. Tinha lá seus troféus. Quando atingiu a devida idade serviu o exército. Após deixar o exército tornou a ser um fazendeiro novamente. Entretanto, em 1939 a União Soviética fizera o tratado com Hitler e agora o Exército Vermelho marchava contra a cidade de Häyhä.
  A guerra sempre chega mais cedo às fronteiras. Simo sabia disso melhor do ninguém. Ciente de que os russos marchariam por suas terras, ocorreu-lhe causar o maior número de baixas antes de passar a mão no trigo. Foi quando ele pegou seu casaco, o rifle e algumas provisões. Também faz todo o sentido cogitar que ele tenha preparado o terreno, escondendo mantimentos e ajustando seus esconderijos previamente. Afinal de contas passariam-se 100 dias na mais absoluta neve. Para se ter uma idéia, o frio chegava a 40º Celsius negativos. A floresta era um lugar impiedoso para muitos, não para Simo.
  A “calma da batalha” (termo paradoxal cunhado por Bernard Cornwell na série de livros As Crônicas Saxônicas), descreve bem o estado de espírito de um francoatirador como Häyhä. Talvez antes ele tenha sido devorado pela ansiedade de encontrar o inimigo atravessando a floresta, mas essa sensação devia esvair-se após o primeiro tiro. Por uma razão simples. Cada tiro era precioso. E por ser tão precioso , ele necessariamente deveria produzir uma morte (ou kill, ou frag, o que vocês quiserem chamar). Então quando o inimigo caia, ficava claro quem continuava no combate e quem mandava no pedaço.
  Da para imaginar homens morrendo de frio, carregando seus fuzis, procurando pisar nas mesmas pegadas do companheiro à frente para não atolar os pés na neve. Praguejando contra a ventania que não os deixam ouvir direito as ordens dos oficiais. De repente soa aquele estrondo de tiro e a gritaria entre os homens de “todo mundo pro chão”. E eles se arrastam, procuram uma cobertura. Uma confusão dos diabos. Os mais espertos deixam de olhar a cara do defunto e passam a procurar de onde veio o disparo. Inútil. Novamente apenas o barulho da ventania. Até tentam separar-se em pequenos grupos, mas infelizmente todos sabem que eles terão um único caminho a percorrer. A medida que prosseguem, aumentam as baixas. Os pequenos grupos agora anseiam para unir-se a grupos maiores. Um consolo de não estar sozinho com um medo crescente no pelotão inteiro.
  Simo Häyhä conhecia o terreno com a palma de sua mão. Ele sabia onde descansar, onde o inimigo estaria – com uma marcha forçada por exemplo –  e que cuidados tomar na hora da caçada. Dentre esses cuidados, estava o fato de não usar a mira telescópica do seu rifle, preferindo assim a mira de ferro. O reflexo da luz na luneta poderia denunciar sua posição. Tinha o cuidado de compactar a neve a sua frente para que o disparo não estremecesse, coisa que também denunciaria sua localização. Não raro também era o fato de colocar neve na boca, para não arfar como um gordo comendo uma puta de 1000 dólares.
  O resultado não poderia ser diferente. Com uma média de cinco mortos por dia, a lenda da floresta ganhou um nome: A Morte Branca. Os sobreviventes retornavam da floresta alegando aos seus superiores que havia um homem  lá dentro que matava todo mundo que entrasse lá. “Como assim UM homem?” (imagino que tenha sido a pergunta mais frequente). O que era um pequeno contratempo, com os dias, tornou-se em um pesadelo. Receber a ordem de atravessar a floresta era a pena de morte.
  A fim de resolver o impasse, os russos denominaram missões para pegar o malandrão. A primeira foi com o que tinham mesmo. Soldados mais corajosos (ou burros) que a maioria. O resultado? Mortos. All them! Reportar aquilo custaria o rabo do oficiais em comando. Então alguém teve a brilhante idéia: “Por que não enviamos um grupo só de counter snipers?” (que nada mais eram que snipers que matavam snipers). A essa altura o comandante já tinha descartado a hipótese de atravessar a floresta e perdera completamente a vantagem de uma marcha rápida para unir-se a outras frentes de batalha russas. Ele tinha um problema e ele precisava ser resolvido. Seus francoatiradores talvez fizessem a diferença.
  E fizeram. Foram dezenas ou mesmo centenas de francoatiradores a menos na tropa russa. Aquilo era a gota d’água. O ódio era tanto do lado russo, que por fim expediram uma ordem para bombardear a floresta, e com ela, tudo o que fosse vivo. Mas os russos talvez não tivessem errado ao apelidar Simo Häyhä de Morte Branca. Aquele homem entregara sua vida muito antes, quando soubera da aproximação do exército russo. Após o bombardeio, diversos grupos adentraram no que restara da floresta e encontraram as vestes de Simo. Exultaram por breves instantes, até ouvirem o tão conhecido estrondo do rifle em meio a nevasca. A Morte Branca arrastaria mais soldados consigo. 
  Em pouco mais de três meses, Simo Häyhä abateu com seu rifle 505 soldados soviéticos entre as mortes confirmadas e 542 entre as mortes não confirmadas. Já com sua SMG ele mandou para os campos de trigo mais de 150 soldados.
  Em 6 de Março de 1940 algum bastardo de muita sorte atingiu Häyhä na cabeça. Os outros soldados o levaram de volta para a base. Havia acabado. A Morte Branca certamente encontrou-se com alguma Valquíria de Odin que deve ter lhe dito: “Tem certeza que você vai querer por a mão nessa plantação?”. A resposta era não. Mesmo diagnosticado com um clássico caso de TIRO NO MEIO DA CARA, Simo Hyaha recupera a consciência no dia 13 de março. O dia em que a guerra acaba.
  Aos 97 anos, Hyaha falece no ano de 2002. Tempo suficiente para ver e ouvir muitas coisas em que esse mundo se transformaria.

Para maiores detalhes há a sua biografia no livro "The Sniper: Simo Hayha".
Também achei esse vídeo em que Hayha está em um encontro dando aqueles autógrafos.


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