terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Payback



  Acordou com a costumeira dor no ombro. Barbeou-se e livrou-se dos gases. Tomou um banho rápido, arrumou-se e foi ao trabalho. Ainda não havia dado bom dia. Achou melhor usá-lo com alguém mais interessante que a recepcionista (que ele tinha certeza, não nutria a menor simpatia por ele). Ao passar, imaginou, como em tantas outras ocasiões, que ela falava dele às suas costas. Virou-se de supetão:

— Esqueci completamente. Bom dia Marta.

  Os celulares, a correria e gente praguejando logo cedo ditavam os rumos do início do expediente. Enquanto o elevador não chegava, a segunda feira tratava de recobrir o saguão com as notícias do jornal da manhã. A pequena multidão se formou, prestes a entopir o elevador. Entraram como animais em uma megaliquidação. As portas iam se fechar quando foram interrompidas. Sua chefe ainda estava longe, mas ele fez questão de esperar. Fez uma careta de desapreço quando os ocupantes reclamaram e isso foi o bastante para silenciá-los. Silêncio que reinou nos próximos segundos. Iam todos para 11º.
  Ligou o computador. Em menos de cinco minutos os chamados começaram a piscar em uma janela irritante e vermelha. Um, dois, três, dezesseis chamados. Lá ia o “rapaz da informática”, resolver os pequenos e os insolúveis pepinos. Cada vez que retornava de um chamado, cruzava o caminho do mural. “Confraternizações demais para gente falsa” – pensou. Com alguma dose de verdade. Haviam as sementes do mal naquela sala. Felizmente o que é podre exala o mau cheiro. Darlan, Marcos e Jefferson. Você precisaria de um coração muito estúpido para se tornar amigo deles. Mestres da sabotagem e do cinismo. Quano o laptop de um cliente sumiu, teve quase certeza que fora um deles. Afinal os cortes na empresa já estavam ocorrendo. Desviar a atenção deles com esse golpe deveria bastar.
  Cinco para o meio dia. Um chamado urgente. Seis computadores da gerência danificados, ao que parece por algum vírus. A voz ao telefone era irritante. Seus companheiros de seção o deixaram com o abaxi, enquanto ele perdia o horário do almoço. Às 15 horas retornou e viu o pessoal tomando coca e repartindo o bolo de aniversário da chefe. A tela continuava piscando. 36 chamadas. Deu os parabéns a chefe, e saiu para mais chamadas.Chegou a conclusão que dava mais trabalho fingir produtividade do que buscá-la. No que então resolveu continuar a trabalhar. No entanto, vez por outra, até a mula se revolta. Foi até a máquina de café, tomou um bom gole  e fez questão de derrubar o restante em Darlan que ensaiou uma reação patética. Ignorou-o e voltou ao trabalho.
  No mês seguinte, Marta passou a cumprimenta-lo antes mesmo que chegasse a recepção. Chamou-o mesmo para almoçar apenas para dizer que o achava muito metido, mas que agora percebia o engano. Fazer as pazes com a consciência. As manhãs continuavam com a leve brisa de preguiça para todo mundo. O elevador sempre lotado. O corpo mole dos seus colegas e a pilha de chamados se amontoando. Tudo igual. Exceto naquela manhã.
  Acordou. A dor no ombro estava insuportável. Tomou um comprimido, fez a barba e livrou-se dos gases. Foi até a padaria, tomou café e fez hora até perder o ônibus. Pegou o próximo e chegou bem depois da chefe. Cumprimentou Marta e a chamou para sair. As colegas riram, ela  aceitou mais para irritá-las do que para agradá-lo. Pegou o elevador e chegou na seção. Mal pisou, sua chefe o chamou. Risadas abafadas atrás dos monitores.

— O ônibus atrasou?
— Não. Quem atrasou fui eu.
— Está acontecendo alguma coisa? Você não é de atrasar.
— Você sabe o que está acontecendo, por isso me chamou aqui.
— Queria ouvir de você antes de começar as demissões.
— Do novato? Isso é novidade.
— Então?
— Nada a declarar. Você já tem as respostas que quer.
— O laptop foi você? Só quero saber isso.
— Você também sabe disso.
— Quero ouvir de você.
— Não. E também não quero mais trabalhar aqui.
— Quer ser realocado?
— Na verdade eu quero sumir daqui o mais rápido possível. Só que antes disso tenho uma proposta.
  
  Saiu da sala com o semblante tristonho. Um murmúrio percorreu as baias. Ou o novato ia rodar ou  então tinha ido lá para caguetar. Jefferson viu a hora em que a chefe enxugou uma lágrima de modo desajeitado. Ele caminhou até a sua mesa, afroxou a gravata, retirou suas coisas da mesa. Saiu da sala sem olhar para trás. Depois do horário do almoço retornou à seção onde a chefe aprontava-se para fazer o comunicado:

— Pessoal quero que vocês se despeçam do nosso nobre colega. Mesmo estando  pouco tempo em nossa equipe, recebi muitos elogios do seu trabalho de vários outros setores da empresa. É uma pena que ele vá nos deixar, mas é para um bem maior. Quer nos dizer algumas palavras antes de ir?
— Gostaria de agradecer a todos por compartilharem esse maravilhoso ambiente de trabalho comigo enquanto estive aqui. Queria agradecer ao Darlan, Jefferson e Marcos por me ensinarem os pontos fracos do setor de informática. A partir de amanhã  haverá um curso de reciclagem no setor, para viabilizar a melhora na produção. Então quero todo mundo animado! Infelizmente não vou poder participar porque estou indo para Dubai hoje a tarde. Um bom trabalho a todos.

Com isso virou-se para ir embora. Sentiu o largo sorriso aflorar no rosto e procurou contê-lo:

— Já ia me esquecendo. Sou o D-O-N-O da empresa agora. Até mais!

  O prêmio da megasena havia saído naquela semana para aquele estado, ou podia ser um blefe. Quem sabe.

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