quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mais um conto Parte 6


O gordo levantou o traseiro do capô do velho carro. A suspensão rangeu como se fosse quebrar. Conferiu a aba do seu chapéu, coçou o saco e reajustou as bolas da melhor forma que pode. Sua calça era bem apertada, mas ai de quem lhe dissesse isso! Era madrugada no ferro velho.
— Resolveu me sacanear ou é aqui mesmo? Os cães não andam nada animados com nossa presença. – disse a raposa com ar entediado.
— Exatamente aqui Vermelha. – respondeu o espírito Dólar, o olhar fixo na escuridão que ultrapassava a cerca.
— Pela hora, acho que morreram.
— Eu teria sentido. Aquele cão do Kael Vagas Palavras não ousaria morrer sem me cobrar um favor. E eles precisam de mim acredite.
— De dinheiro você quer dizer. – alfinetou a raposa maliciosamente.
— Dá no mesmo. Além disso eles devem estar com garoto da profecia.
— Até você com essa coisa idiota de profecia? Por Gaia!
Mal tiveram tempo de expor suas opiniões, quando o barulho dos pneus revirando a brita do caminho soou audível o suficiente para os dois. A raposa fez menção de se esconder. Já o gordo cowboy sorriu mostrando os dentes de ouro. Afinal de contas se eram espíritos para que se esconderem? Velhos hábitos nunca morrem.
Caolho observava com crescente interesse a garota que dirigia com as mãos tremendo.. Ela escapara dos assassinos no hospital, mas caíra nas mãos de outro bandido, e o pior, o cara tinha um buraco três ou quatro vezes menor que uma caçapa de sinuca no lugar de um olho. “Só o que faltava. Ser refém de um pirata!”. E convenhamos, era muita desgraça de uma só vez. Ficaram portanto os dois olhando-se alternadamente enquanto o silêncio assomava na medida em que passavam as quadras.
— Tão vindo do tiroteio lá detrás? – perguntou Faye finalmente.
— Cale a boca e dirija.
Quando o carro finalmente parou, eles estavam em frente ao ferro-velho um pouco afastado da estrada. Hora em que os corações batiam mais rápido. Para ambos.
— Olha seu moço, você pode me matar que eu nem ligo mais. Mas morrer sem saber quem matou o meu irmão eu não admito. – Disse uma Faye determinada a não entregar os pontos. Caolho já ouvira falar da tal garota do hospital, visto as manchas de sangue se formarem em sua blusa, e no entanto não a reconhecera.
— Que se foda você e o seu irmão. Rala peito antes que eu mude de idéia.
O filhote então gemeu no banco traseiro. Apontava pra Faye, a reconhecendo, imerso num mar de culpa por não levar à cabo a função de protegê-la. E por estranho que pareça, nenhum dos dois ligou os pontos, entretanto, quis o destino que formassem um grupo.
— Tá legal sua escrota. O filhote ali achou você bonita. Por enquanto cê vai ficando. Até porque a coisa tá feia pro seu lado. – disse apontando para suas ataduras. Somente agora ela se dera conta. Mas Faye tinha língua afiada.
— Falou a peneira de separar cascalho né! Segura a mão que eu dou um jeito de trazer alguns remédios pra gente.
— Não tenho tempo garota. Ele já está pra morrer de todo jeito. Me ajuda a carregá-lo.
E assim o grupo maltrapilho entrou no ferro velho, dirigindo-se ao contêiner de um velho conhecido. O velho Earl.
Os cães ladravam como se fosse o fim dos dias. Caolho havia tranqüilizado a garota, pois havia uma clara hierarquia ali. Eles não a morderiam enquanto ela estivesse com ele. Talvez fosse todo aquele cheiro de sangue que estivesse provocando aquele alvoroço. O que era igualmente estranho, visto que já chegara quase nas mesmas condições outras vezes.
— Acho que é por causa daquele gordo ali. – apontou a garota.
— Que gordo? – procurou Caolho de prontidão.
— Ali, no capô do carro. Vamos até lá, ver se ele prende essa cachorrada dos infernos. Já deu nos nervos.
Era um espírito, Caolho tinha certeza. E logo numa hora crítica daquelas! A garota era desbocada até não mais poder. Poderia desrespeitá-lo, e ai sim as coisas estariam muito piores do que o de costume. Um combate era a única coisa que precisava evitar. Mas não havia tempo. A garota já se dirigia ao cowboy sessentão.
— Ei tio, essa cachorrada toda é sua? – O gordo levantou a aba do seu chapéu e ergueu uma de suas sobrancelhas no seu melhor charme. Aquilo não falhava no Kentucky, muito menos no Goiás. Mas também não retiremos os créditos da bela e enfaixada Faye.
— Não senhorita. Eles latem porque esse é ofício deles. E essa é a ordem natural das coisas. Ladrões e polícias, raposas e galinhas, credores e devedores.
— Saquei.
— Você e os seus parecem bem feridos.
Caolho, estava aturdido, sem saber como se portar. Simplesmente porque por mais que tentasse, não conseguia se concentrar o suficiente para sequer ouvir o que dizia o espírito, sem aquilo demanda-se o restante de suas forças.
— O que ele está dizendo garota?
— Que a gente ta fodido.

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